Ron Minnich e os detalhes do CoreBoot

outubro 10, 2012 as 4:14 por

Atualmente há uma discussão grande e polêmica sobre uma nova implementação para BIOS. Conhecida como UEFI Secure Boot, ela prevê a implantação de um ‘Boot Assinado’, ou seja, um sistema operacional que só pode ser instalado na sua máquina se previamente assinado.

Para comentar um pouco sobre isso, uma das atrações internacionais da Latinoware 2012 será o engenheiro de software do Google, Ron Minnich. Além de apresentar o CoreBoot – uma tecnologia para implementação de BIOS livre criada por ele – ele vai abordar outros temas em sua palestra. Confira a entrevista completa:

Qual a situação de momento? Soubemos que a Microsoft estará lançando chaves de segurança de assinatura e as comercializará com outros vendedores de sistemas operacionais. A Red Hat e a Canonical já compraram. Como isto irá impactar um usuário ou empresa comuns ou um governo?

A situação hoje é que os PCs oferecem aos usuários a liberdade para fazer qualquer coisa que desejem. Os PCs têm sido desta forma desde a sua criação nos anos 70 – os criadores originais fizeram todos os esforços para mantê-los abertos o maior tempo possível. Mesmo a IBM, quando padronizou o que nós chamamos agora de PC, fez a abertura do projeto, inclusive fornecendo uma lista de BIOS que vinham com a máquina — embora sob direitos autorais, o que tornou necessária a engenharia reversa do BIOS.

O “secure boot” (“inicialização segura”) UEFI é projetado para restringir esta liberdade em nome da segurança. Desde o início da era do computador pessoal até agora, um proprietário de PC poderia iniciar qualquer sistema operacional que desejasse. Mesmo hoje, um usuário que queira converter um PC de Windows para Linux precisa apenas colocar um CD e apertar o botão para ligar. Os PCs mais novos não serão tão abertos. Para os sistemas x86, com “inicialização segura”, os PCs comerciais irão quase certamente iniciar somente o software — bootloader ou sistema operacional — assinado com a chave de propriedade da Microsoft, a menos que o criador do PC forneça uma maneira de desabilitar a “inicialização segura” — e o usuário saiba como desabilitá-la.

Enquanto for possível instalar certificados em PCs diferentes daqueles criados pela Microsoft, acredito que seja improvável que os vendedores passem por todo este problema. Enquanto as grandes distribuições podem conseguir seus acessos ou bootloaders assinados pela Microsoft, os ‘caras’ pequenos terão que encontrar os $99 para serviços assinados ou tentar convencer os usuários a desabilitar a “inicialização segura” — o que muitos usuários podem não estar dispostos a fazer. Nós podemos esperar campanhas tentando convencer os usuários a não “tornarem seus PCs menos seguros” desabilitando a inicialização segura. Em todo caso, esta parece uma barreira à entrada. Voltando a 1991, com estas limitações, seria difícil ver o Linux acontecer da mesma forma.

Com o ARM é muito pior, porque desabilitar a “inicialização segura” não é uma opção. O ARM esteve tradicionalmente muito aberto, mas esta abertura pode começar a mudar. Você pode encontrar um resumo aqui. http://mjg59.dreamwidth.org/13713.html

E, como foi ressaltado, as exigências de inicialização segura UEFI têm implicações para quais módulos podem ser carregados em Linux. Isto vai além do que apenas iniciar. De forma simples, com a inicialização segura UEFI, o PC aberto como nós conhecemos por mais de 30 anos acabou.

A implementação real da tecnologia assinada de inicialização irá permitir que um governo assine o software por sua própria conta?

Acredito que sim. Mas será um processo complexo que muitos governos podem não estar dispostos a estabelecer. Matthew explica muito melhor do que eu poderia: http://mjg59.dreamwidth.org/9844.html. Eu duvido que os governos façam qualquer coisa para tornar o sistema fechado mais aberto. Não está em sua natureza.

Nós vimos muitas tentativas de proteger dispositivos como tablets, smartphones, consoles de video game, etc. contra a execução de um código arbitrário com tecnologia similar e elas falharam em determinado ponto. Você acredita que a tecnologia de inicialização assinada para o PC comum poderá evitar entrar para esta lista?

Não tenho certeza. Certamente parece que diversas empresas estão tentando fechar o PC da mesma forma que estes outros produtos estão fechados. Ao mesmo tempo, eu nunca pensei que o Xbox 360 funcionaria com um código não assinado, no entanto este: http://www.howtogeek.com/95339/new-xbox360-hack-works-on-all-360-models-2/ funciona. Eu aprendi a não subestimar a engenhosidade de um grupo motivado de hackers.

Até onde nós sabemos, entretanto, a falta de participação da comunidade significa que a inicialização segura UEFI tem alguma falha e é o próximo WEP (http://en.wikipedia.org/wiki/Wired_Equivalent_Privacy), ou pode ser quebrada tão facilmente quanto o chip Clipper: http://en.wikipedia.org/wiki/Clipper_chip)

Esta tecnologia realmente fará diferença em relação à segurança, e quem deve ter o controle da chave secreta para assinar outros Sistemas Operacionais?

Isto garantirá de alguma forma que você não possa iniciar um sistema operacional não autorizado — presumindo que a EFI não tenha sido hackeada, sendo que foi, diversas vezes. A minha preocupação é que a inicialização segura UEFI parece ter mais do que um objetivo. Sim, está limitando o que pode ser iniciado como o único código “de confiança”. Está tornando também bastante inconveniente iniciar qualquer coisa além do Windows. A confusão de “iniciar um sistema operacional seguro” com “iniciar apenas o windows” não é desejável do meu ponto de vista.

Especialistas em segurança (eu não sou um deles) dizem que a real área de oportunidade para os “caras maus” é o browser. A inicialização segura UEFI naturalmente não tem nenhum valor para este problema. Restringir PCs para iniciar “sistemas operacionais assinados” parece-me a solução de um problema de controle para determinados vendedores, restringindo a liberdade de iniciar qualquer sistema operacional, mais do que resolvendo um problema de segurança. De qualquer forma, deve ser possível resolver o problema do sistema operacional assinado de uma maneira que seja menos inconveniente para os usuários — que, apesar de tudo, pagam pelo hardware que estarão restritos a utilizar de certas formas. Acredito que não seja uma boa troca. Poderia sem dúvida nenhuma ter sido resolvido de uma forma melhor se houvesse um maior envolvimento da comunidade.

Mas a participação da comunidade em seus projetos e implementação nunca foi uma prioridade da EFI, até onde eu sei.

*Ron Minnich é engenheiro de software do Google, inventor do LinuxBIOS em 1999; Conduziu o projeto nos seus primeiros 10 anos e recentemente voltou a trabalhar no Coreboot.

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